Excelência em pultrusão

Por Alexis Costa

A EXPANSÃO DAS REDES TRIFÁSICAS RURAIS E AS PERSPECTIVASPARA O MERCADO DE PRFV NA DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA BRASILEIRA

Introdução

A modernização das redes rurais de distribuição de energia elétrica constitui um dos principais desafios de infraestrutura associados ao desenvolvimento do agronegócio e da produção industrial no interior do Brasil.

Durante décadas, parte significativa da eletrificação rural brasileira foi realizada mediante redes monofásicas ou sistemas simplificados, adequados ao atendimento residencial básico, mas nem sempre suficientes para suportar o crescimento contemporâneo da carga elétrica nas propriedades rurais.

A ampliação da irrigação, da refrigeração, do armazenamento de grãos, da produção leiteira, da avicultura, da suinocultura, da automação e do beneficiamento de produtos agrícolas passou a exigir maior potência, qualidade e estabilidade no fornecimento de energia.

Nesse cenário, a conversão e a expansão das redes trifásicas assumem importância crescente no planejamento do setor elétrico brasileiro, gerando demanda por postes, cruzetas, isoladores, ferragens, condutores, transformadores e demais componentes destinados à construção e ao reforço das redes de distribuição.

Esse movimento também abre espaço para o crescimento dos polímeros reforçados com fibra de vidro, conhecidos pela sigla PRFV, especialmente em componentes estruturais sujeitos à ação do tempo, à umidade, à corrosão e a ambientes rurais agressivos.

O que determina a legislação brasileira

A base normativa federal aplicável à eletrificação rural não estabelece, atualmente, uma obrigação geral de substituir todas as redes monofásicas existentes por redes trifásicas.

A Lei nº 10.438, de 26 de abril de 2002, estruturou a política de universalização do serviço público de energia elétrica. Seu objetivo principal foi assegurar o acesso à energia, inclusive mediante atendimento gratuito em determinadas hipóteses definidas pela regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica.

Segundo a ANEEL, a universalização gratuita alcança consumidores do Grupo B com carga instalada de até 50 quilowatts, desde que estejam presentes as demais condições regulatórias. A legislação, entretanto, assegura o acesso ao serviço, e não necessariamente uma modalidade trifásica de conexão em todas as propriedades rurais.

A matéria é atualmente disciplinada, entre outros instrumentos, pela Resolução Normativa ANEEL nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021, e pelas normas relacionadas aos planos de universalização das distribuidoras.

A definição da configuração da rede — monofásica, bifásica ou trifásica  — depende das características da carga, das condições técnicas do sistema, do projeto da distribuidora, dos padrões de atendimento e, em determinadas situações, da participação financeira do consumidor.

Portanto, não se deve confundir o direito de acesso à energia elétrica com um direito automático e irrestrito à implantação de rede trifásica sem avaliação técnica ou econômica.

O Programa Luz para Todos e as redes trifásicas

O Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica, conhecido como Luz para Todos, foi criado para ampliar o atendimento, especialmente às populações rurais e às comunidades vulneráveis.

Os documentos técnicos do programa admitem expressamente a utilização de redes trifásicas primárias e a realização de obras de adição de fases.

O manual operacional aplicável ao ciclo de 2018 a 2022 previa que redes trifásicas primárias, incluindo obras de adição de fases, poderiam representar até 30% do comprimento total da rede primária dos programas de obras.

Consideradas conjuntamente as redes bifásicas com neutro e as trifásicas, o limite poderia alcançar 40%.

Esses percentuais não representavam uma determinação para trifasicar toda a área rural brasileira.

Demonstravam, contudo, que a expansão de redes trifásicas já integrava os critérios técnicos dos programas federais de eletrificação rural.

A norma também determinava que os agentes executores priorizassem tecnologias, materiais e equipamentos que reduzissem o custo das redes.

Esse direcionamento permanece relevante para a análise de novos materiais e componentes aplicáveis à distribuição de energia. (Serviços e Informações do Brasil)

A diferença entre universalização e modernização

O Brasil avançou significativamente na universalização do acesso à energia elétrica, mas o atendimento inicial de uma propriedade rural não resolve necessariamente suas necessidades energéticas futuras.

Uma ligação originalmente dimensionada para iluminação, eletrodomésticos e pequenas cargas pode tornar-se insuficiente quando a propriedade incorpora:

  •  Sistemas de irrigação;

  •  Secadores e armazenadores de grãos;

  • Ordenha mecanizada;

  •  Câmaras frigoríficas;

  •  Bombas hidráulicas;

  •  Motores elétricos de maior potência;

  •  Sistemas de ventilação e climatização;

  •  Máquinas de beneficiamento;

  •  Geração distribuída;

  •  Automação e controle remoto.

Por isso, a modernização da infraestrutura rural deve ser analisada como uma etapa posterior e complementar à universalização.

O desafio atual não é apenas levar energia até a propriedade. 

É assegurar que a rede possua capacidade, confiabilidade e qualidade suficientes para sustentar atividades produtivas cada vez mais intensivas em eletricidade.

A iniciativa legislativa federal sobre o tema

A ausência de uma obrigação federal geral pode ser demonstrada pela própria existência de propostas legislativas destinadas a instituí-la.

Em 2026, foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 2.289/2026, que propõe disciplinar a conversão da conexão de unidades consumidoras rurais de monofásica para trifásica.

A proposição estabelece que concessionárias e permissionárias promovam a conversão mediante requerimento dos titulares, observadas condições de planejamento e expansão da rede.

Trata-se, entretanto, de projeto de lei, e não de norma federal já vigente.

(Portal da Câmara dos Deputados) Anteriormente, o Projeto de Lei nº 3.777/2012 já havia proposto permitir que produtores agropecuários atendidos por programas de universalização optassem por conexão trifásica. Também se tratava de proposta legislativa, e não de obrigação nacional efetivamente incorporada ao ordenamento.

(Portal da Câmara dos Deputados) Essas iniciativas revelam que a necessidade de ampliar o atendimento trifásico rural é reconhecida nacionalmente, embora ainda não exista uma determinação legal uniforme para todo o território brasileiro.

Um movimento nacional, ainda que descentralizado

Mesmo sem uma lei federal que imponha a trifasicização integral das redes rurais, existe um movimento nacional de modernização.

Esse movimento decorre da combinação de diversos fatores:

  •  Programas federais de universalização;

  •  Planos de investimento das distribuidoras;

  •  Metas regulatórias definidas pela ANEEL;

  •  Programas estaduais de expansão;

  •  Necessidades produtivas do agronegócio;

  •  Solicitações individuais de aumento de carga;

  •  Reforços de rede necessários à geração distribuída;

  •  Renovação de ativos antigos;

  • Busca por maior confiabilidade e redução de perdas.

As características variam conforme o estado, a concessionária e a região elétrica.

Entretanto, a necessidade estrutural é nacional: o campo brasileiro consome mais energia, opera equipamentos mais sofisticados e depende cada vez mais da qualidade do fornecimento.

A oportunidade para o mercado de PRFV

A expansão e o reforço das redes de distribuição aumentam a demanda por componentes estruturais capazes de oferecer desempenho técnico, segurança e durabilidade.

Nesse ambiente, os produtos fabricados em PRFV apresentam características relevantes para o setor elétrico, como:

  •  Resistência à corrosão;

  •  Imunidade ao apodrecimento;

  •  Baixa absorção de umidade;

  •  Resistência a agentes químicos;

  •  Menor peso em comparação com determinadas soluções tradicionais;

  •  Facilidade logística;

  •  Redução das necessidades de manutenção;

  •  Possibilidade de padronização industrial;

  •  Elevada vida útil, quando corretamente projetados e fabricados.

 

No ambiente rural, essas características ganham especial importância.

As redes podem atravessar áreas úmidas, regiões de aplicação intensiva de produtos agrícolas, zonas costeiras, áreas sujeitas a variações severas de temperatura e locais de difícil acesso para equipes de manutenção.

Nessas condições, a durabilidade do componente não representa apenas uma vantagem de material.

 

Ela pode produzir redução de interrupções, de deslocamentos, de substituições prematuras e de custos operacionais ao longo da vida útil da rede.

Cruzetas em PRFV na modernização das redes

As cruzetas constituem elementos estruturais essenciais das redes aéreas de distribuição.

Sua função exige estabilidade dimensional, resistência mecânica, compatibilidade com ferragens, confiabilidade e comportamento adequado durante longos períodos de exposição ambiental.

 

A substituição de materiais convencionais por cruzetas em PRFV deve ser acompanhada de especificações técnicas, controle do processo produtivo, ensaios mecânicos, rastreabilidade e atendimento aos padrões definidos pelas concessionárias.

 

Quando esses requisitos são observados, o PRFV pode contribuir para a modernização da distribuição de energia, especialmente em projetos que busquem maior vida útil e menor necessidade de manutenção.

 

A expansão das redes trifásicas também pode ampliar a utilização de cruzetas, pois configurações trifásicas exigem estruturas próprias para a sustentação e disposição dos condutores, de acordo com os padrões construtivos adotados pelas distribuidoras.

Planejamento de longo prazo

A modernização energética do campo brasileiro não ocorrerá por meio de uma única lei ou de um programa isolado.

Ela dependerá da coordenação entre União, estados, ANEEL, concessionárias, produtores rurais, cooperativas, fornecedores e agentes financeiros.

A expansão da rede trifásica precisa estar vinculada a planejamento de carga, viabilidade técnica, capacidade de investimento e definição de prioridades regionais.

Ao mesmo tempo, fabricantes nacionais devem estar preparados para fornecer componentes em escala, com qualidade consistente e conformidade com as exigências técnicas das empresas de energia.

Para Alexis Lemos Costa, fundador e CEO da Costa Mar Indústria, a modernização das redes rurais representa uma oportunidade para que a indústria brasileira de materiais compósitos participe diretamente de uma

transformação estratégica da infraestrutura nacional.

O avanço do PRFV não depende apenas do aumento do número de obras.

Depende da demonstração objetiva de desempenho, confiabilidade e vantagem econômica durante todo o ciclo de vida dos ativos.

Conclusão

Não existe atualmente uma lei federal que obrigue a conversão indiscriminada de todas as redes rurais brasileiras para o sistema trifásico.

O que existe é uma política nacional de universalização do acesso à energia, acompanhada por regras regulatórias, programas públicos, investimentos das distribuidoras e iniciativas legislativas voltadas à ampliação da capacidade elétrica no meio rural.

A expansão do trifásico é, portanto, uma tendência nacional impulsionada pelo crescimento da demanda produtiva, pela modernização do agronegócio e pela necessidade de redes mais robustas e confiáveis.

Esse cenário cria perspectivas relevantes para o mercado de PRFV, especialmente para fabricantes de componentes estruturais destinados às redes de distribuição.

A combinação entre expansão da carga rural, reforço da infraestrutura, renovação de ativos e busca por materiais duráveis pode ampliar significativamente a presença dos compósitos no setor elétrico brasileiro.

Mais do que uma oportunidade comercial, trata-se da possibilidade de a indústria nacional contribuir para uma rede elétrica mais moderna, eficiente e preparada para sustentar o desenvolvimento econômico do interior do Brasil.

Sobre o autor: Alexis Lemos Costa é Fundador e CEO da Costa Mar Indústria

  • Rua Mauricio Stabile, 1044, Jardim Santana, Birigui, SP